A fome: a nova pandemia

A palavra fome voltou a assombrar os brasileiros mais pobres colocando-os em risco de insegurança alimentar: inflação alta, desemprego e ausência do auxílio emergencial – ao menos num nível que permita a compra de uma cesta básica.

Pessoas pegam sobras de mercado colocados no caminhão do lixo.


O Brasil deixou o chamado Mapa da Fome em 2014 com o amplo alcance do programa Bolsa Família – estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) baseado em dados de 2001 a 2017 mostrou que, no decorrer de 15 anos, o programa reduziu a pobreza em 15% e a extrema pobreza em 25% saindo do Mapa da Fome. No entanto, o país deve voltar a figurar na geopolítica da miséria no balanço referente a 2020.


O Mapa da Fome é um levantamento feito e publicado pela ONU (Organização das Nações Unidas) sobre a situação global de carência alimentar. Um país entra nesse levantamento quando a subalimentação afeta 5% ou mais de sua população. Venezuela, México, Índia, Afeganistão e praticamente todas as nações africanas apareceram no mapa referente a 2019.


De acordo com Daniel Balaban, representante no Brasil do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (WFP) e Diretor do Centro de Excelência contra a Fome, a situação brasileira é muito preocupante. Ele projeta que o Brasil esteja próximo dos 9,5% de sua população com subalimentação.


“A condição do Brasil vinha se deteriorando antes da pandemia, por conta dos cortes orçamentários de políticas sociais, crises políticas e econômicas. A pandemia só apressou e piorou essa situação”, disse Balaban.


Medidas para arrecadar alimentos se espalham pelo país entre poder público, empresas, igrejas e organizações da sociedade civil. Como exemplos a campanha Quarentena Solidária da Alvo Cultural que distribuiu 40 toneladas de alimentos e já atendeu mais de 3 mil famílias desde março de 2020 e vem com dificuldades para atender o volume crescente de pessoas necessitadas.


Alvo Cultural entrega cestas básicas na Zona Norte de Porto Alegre.


Balaban, da ONU, acrescenta que, sem uma política em longo prazo contra a fome, o risco de insegurança alimentar é permanente. “São necessárias políticas públicas perenes de combate à miséria, independentemente do governo ou o país, é um cachorro correndo atrás do rabo”, diz Balaban.

A massa salarial, um indicador que mede o bolo de rendimentos relativos a trabalho recebidos pela população, sem incluir benefícios como o auxílio, já a terceira redução mensal consecutiva, de acordo com dados do IBGE. Além disso, a alta do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no grupo alimentos, em 12 meses, foi de 15% - quase o triplo do índice geral.


“Com a alta nos preços de alimentos e o preço do botijão de gás chegando a R$ 100, para muitas pessoas a escolha foi feita entre comprar comida e cozinhá-la”, diz André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos. “Sob qualquer ponto de vista, se torna uma situação catastrófica para as camadas mais pobres, já que as altas de preços se concentram em produtos essenciais e com peso maior para esses estratos sociais.”


O AUXÍLIO EMERGENCIAL

Em março de 2020, o Ministério da Economia havia aprovado um auxílio de R$ 200, mas, devido à pressão popular, o repasse inicial passou a ser de R$ 600 mensais durante três meses.

O benefício foi destinado para trabalhadores informais e de baixa renda, microempreendedores individuais e também contribuintes individuais do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), com o objetivo de evitar os impactos causados pela pandemia.




Em novembro, o repasse caiu pela metade (R$ 300) e, em abril de 2021, começaram a ser pagas parcelas de R$ 150 a R$ 375.


“Qualquer pessoa que vai ao mercado sabe que esse dinheiro não dá para alimentar corretamente nem uma pessoa sozinha, imagina uma família com quatro pessoas”, reflete José Raimundo.

Além disso, é importante ressaltar que, em um ano de pandemia, a alta dos preços de alimentos foi de 15%, sendo quase o triplo da inflação oficial do período, que ficou em 5,20%.


AS DESIGUALDADES AUMENTAM A FOME

A fome também está relacionada a outras desigualdades no país, já que mais de 30 milhões de pessoas não possuem uma casa para morar e 14,8 milhões estão desempregadas.


Por outro lado, a fortuna dos mais ricos subiu em 31% durante a pandemia e o agronegócio continua batendo recordes no número de exportação durante uma das maiores crises já vistas no país.

O QUE FAZER?

A vacinação universal é um primeiro passo para sairmos do fundo do poço da pandemia que ceifou até agora 542 mil pessoas.

Segundo passo é buscar garantir a alimentação de milhares de crianças e suas famílias no meio desse caldo de exclusão social aprofundados pela pandemia e o negacionismo. Por isso a Alvo Cultural continua com a arrecadação e doação de alimentos para as famílias que se cadastram para receber ajuda. Você pode se somar na campanha do APOIA.SE: www.apoia.se/afometempressa


Fonte: CNN / Brasil de Fato / ONU

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