top of page

Negritude: Identidade Negra na sociedade brasileira


Por Luana Daltro


Quem nós somos? Parece ser uma pergunta simples, mas carrega o peso do processo de autoconhecimento. Não existe uma resposta universal, o que sabemos é que para pessoas que passam por vivências de invisibilização e negação, como pessoas negras, este pensamento se torna mais latente.

Olhando para minha trajetória de (re)construção de identidade e pela quantidade de pessoas que ainda estão neste processo, resolvi falar sobre identidade negra e trazer pontos que acredito que sejam fundamentais para trabalharmos a evolução identitária de pessoas negras e assim atingir a tão sonhada negritude. Bora saber mais?

Identidade Negra no Brasil

Para começar, acredito que seja importante conceituar identidade. A identidade pode ser vista como o elemento individual e coletivo que enaltece as raízes culturais e sociais da população, assim como, transmite um discurso que fala sobre nós mesmos. Por isso, a identidade surge a partir da interação que você tem consigo, com os outros e com o mundo (Nascimento, 2003).

Um mergulho histórico na identidade negra

A identidade negra pode ser vista como forma de resistência na sociedade brasileira. Ganhando essa conotação desde a chegada dos africanos no país, os quais buscavam preservar sua identidade étnica e religiosa (SCHUMAHER; VITAL BRAZIL, 2007), embora sofressem as imposições das mudanças do homem branco. Conforme aponta André (2008), o homem branco utilizou-se de diferentes mecanismos para controlar e combater pessoas negras:

1. Para desenraizar suas práticas sociais e a comunicação dos grupos de tribos semelhantes da África, os donos de escravizados os separavam e misturavam com tribos diferentes, medida que evitaria sua organização para fugas. 2. Outro modo de atuação foi à formação da ideologia de branqueamento elaborada pela elite brasileira, a partir do século XIX e meados do século XX, baseada na premissa de que era necessário embranquecer o país, uma vez que a população negra estava aumentando, e o governo não queria uma população formada por negros, afinal, ser negro sempre foi visto como algo ruim.

A partir disso, aponta André (2008), surge a miscigenação. Essa foi difundida como forma de alienação da identidade para negros e índios, os quais acreditavam que com essa medida, seus filhos seriam incluídos na sociedade. Para a autora, a miscigenação tornou-se eficaz, pois desenvolveu três formas de ação:

  1. A violência sexual praticada pelos senhores de escravizados em mulheres negras e indígenas.

  2. Casamentos fora do religioso.

  3. À chegada dos imigrantes no país. Nossos governantes adotaram uma política externa no regime colonial, que facilitava a vinda de imigrantes de todos os países do mundo para o Brasil, oferecendo a possibilidade de trabalho e moradia. Mas, a verdade é que, novamente, o objetivo era o clareamento.

A miscigenação foi um processo construído socialmente, e infelizmente, é uma das causas da dificuldade de estruturação das nossas identidades, sendo percebido na dificuldade de autodeclaração racial.

Autodeclaração

A autodeclaração racial é um dos processos mais difíceis para constituição da identidade negra. Essa é a principal dúvida que chega no meu direct do Instagram (@ludaltro_): como eu me declaro?

A dificuldade em conseguirmos nos autodeclarar como pertencentes a um grupo étnico-racial é um dos resquícios do processo de miscigenação no Brasil.

Vivemos num país que buscou embranquecer a população e construiu a miscigenação baseada numa política eugenista. O resultado disto foi o desenvolvimento, sem perceber, de uma multiplicidade racial e vemos uma consequência em:

1) uma visão de fragmentos sobre a identidade, as pessoas sentem dificuldade em se autodeclararem como pertencentes a um grupo racial. Isto causa uma dor, de se sentir deslocado, estando num limbo racial e/ou buscando uma aceitação identitária de quem nós somos. 2) somos conhecidos pela diversidade, vendemos isto para o mundo, mas não acreditamos que esta diversidade seja algo positivo. O Brasil é um país racista com pessoas negras, indígenas, amarelas e pardas, por isso, encontrar a nossa identidade é uma forma de resistência.

Um resgate à negritude

Hoje vivemos num processo de autoafirmação e valorização dos nossos traços. Após passarmos séculos de privação de quem nós somos, conseguimos encontrar resistência na construção do Movimento Negro Brasileiro, como a Frente Negra Brasileira. Lutamos por direitos e pelo ato político de valorização dos nossos cabelos, aliado ao movimento black power e black is beautiful, iniciado nos Estados Unidos.


Movimento Negro Brasileiro em protesto. / Fonte: Toda Matéria

Esse processo de afirmação, se comparado com 500 anos de escravização, é muito recente. Estamos nos alforriando dos processos de embranquecimento dos nossos corpos, lutando por equidade racial, e também pela reconstrução da nossa identidade.

A (Re) Construção da Identidade Negra

A negação identitária do negro no Brasil tem origem no período de escravização do Brasil, no qual suas características não eram aceitas, seus cabelos, cor de pele, nariz e lábios eram ridicularizados. As pessoas negras eram vistas como inferiores e submissas ao branco, tanto no sentido social e político quanto no econômico. Após o fim do regime de escravidão e sua substituição pelo capitalismo, tornou tal representação vista como antiga (SOUZA, 1983). No entanto, sabemos que esta visão ainda persiste enraizada na sociedade. O resultado disso é a falta de identificação com a cultura negra, muitas pessoas negras, não se autodeclaram como pretas, por exemplo, pois aprenderam que ser negro é algo ruim.

A partir de diversas leituras ao longo do meu TCC, criei um fluxo que demonstra onde estamos na nossa identidade negra e onde queremos queremos chegar (identidade positiva, ou, negritude). Acredito que o entendimento destas fases podem nos ajudar no alcance da tão sonhada negritude, valorizando quem nós somos.

  1. Fragmentação

A concepção negativa que temos é um resultado desse processo histórico, o qual tornou nossa identidade fragmentada (HALL, 2000). Nessa negação o cabelo crespo aparece como um objeto do descentramento, sofridos com as imposições ditadas por grupos dominantes, mas que se constitui como um signo de resistência.